Ana Paula Valadão e a maioria não entendem de moda sem gênero

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Em uma época onde pessoas não querem ser rotuladas, pregam o amor e acham tudo um absurdo temos que lidar com a adaptação do novo espaço – ou nem tão novo assim – que surgiu nos últimos anos, as redes sociais. Não é porque temos espaços para colocar nossos conceitos que devemos explanar o que pensamos pelos quatro cantos porque a liberdade nos foi dada.

Por que estou escrevendo isso?

Nos últimos meses as marcas nacionais e internacionais estão numa tentativa de inserir coleções sem gêneros, umas na tentativa de pegar uma carona nas polêmicas pra vender ou até mesmo somente aparecer e outras ainda se adaptando ao novo, colocando roupas básicas de cortes retos achando que o gênero remete apenas a cortes.

A C&A lançou uma coleção nessa pegada há uns meses que rendeu vários comentários positivos pela iniciativa mas negativas devido a padronagem. Mas não estamos aqui pra julgar coleções e sim conceitos, preconceitos e falta de informação.

Muito me impressiona a nova geração que se afirma tanto sempre focar no que não quer do que querer dar forças para aquilo que acredita, de valorizar uma crítica do que exaltar aquilo que tem como conceito. A moda está e sempre estará presente na vida de todos, seja por roupa ou qualquer item – a moda não é a Gisele na passarela com um monte de gente fútil ocupando a fila A porque é popular, vai muito além disso.

Acho que a moda sem gênero é algo há mais para essa geração que não quer ficar presa a conceitos e quer gerar algo novo, mas tem preguiça pra fazer acontecer. Vejo a nova geração como aquele filho rebelde que quer aprontar e fazer o que não gosta só pra chamar a atenção dos pais, que faz tudo mas sem foco em nada.

Como disse no começo do texto as redes sociais é algo novo pra muitos, ainda mais para os novos que têm chegado ao espaço digital e ainda não sabem os limites ou a dimensão que um simples vomitar de opiniões pode ter online. Hoje a rede social não é um espaço de apenas jovens, modernos, cult e descolados, mas também espaço daquela tia chata, o religioso intolerante, o homofóbico enrustido e por aí vai…

Esses novos perfis chegaram nas redes sociais agindo como se tivessem na mesa da família, ou na igreja onde prega seus conceitos religiosos, ou na roda de amigos que faz piadinhas sexistas, machistas e homofóbicas como se ninguém tivesse ouvindo ou lendo o que eles postam, como se as redes se limitassem apenas à pessoas do seu circulo social real que dividem o mesmo pensamento.

A luta contra antigos conceitos é uma coisa maravilhosa para a moda, para a vida e por isso que hoje as mulheres estão alcançando seus direitos, homens estão mais informados sobre moda, gordinhas estão quebrando padrões, gays e afins estão quebrando barreiras contra o preconceito.

Mas como nosso foco aqui é a moda, vamos focar no último ocorrido e polêmica, que envolve a cantora gospel Ana Paula Valadão que após meses do lançamento da coleção da C&A postou o seguinte pensamento: “Hoje decidi manifestar minha ‪#‎SantaIndignação‬ porque acredito que estão provocando para ver até onde a sociedade aceita passivamente a imposição da ideologia de gênero. Fiquei chocada com a ousadia da nova propaganda da loja C&A. Chama-se misture, ouse e divirta-se. São casais de namorados saindo e quando eles se beijam a roupa do homem passa pra mulher e a da mulher pro homem. Os homens saem de salto e tudo. E aí fala. Ouse, misture. Em outra propaganda da mesma campanha eles fizeram todos nus como se fossemos criados iguais e temos o poder de escolha. Então chegam em um campo cheio de roupas e as mulheres começam a vestir as roupas dos homens e os homens as das mulheres. Que absurdo! Nós que conhecemos a Verdade imutável da Palavra de Deus não podemos ficar calados. Temos que ‪#‎boicotar‬ essa loja e mostrar nosso repúdio. Nos EUA a loja Target já teve prejuízo porque mais de 1 milhão de pessoas pararam de comprar (inclusive eu) desde que determinou que os banheiros feminino e masculino podem ser usados por quaisquer pessoas que se sintam homem ou mulher naquele dia, aumentando os riscos de abusos (que já aconteceram em outros lugares que apoiam a ideologia de gênero).”. 

Adivinha o que aconteceu? Polêmica em cima de uma opinião contrária, pessoas sem rótulo rotulando a religiosa, quem prega o amor disseminando o ódio e a luta ficando para trás. Sim, ficando para trás. No meu pensamento de quem conhece todos os lados sabe que a religiosidade cega as pessoas e faz com que elas preguem o que as convém e o que não é lícito é colocado como pecado para quem as ouve.

O que dizer da #SantaIndignação que recusa a moda sem gênero por princípios bíblicos, mas tem a vaidade como aliada, que pinta e corta os cabelos, usa roupas de marca e também usa bota de couro de Phyton, em uma era onde isso é desnecessário já que temos tecnologia que faz esse tipo de material sem judiar da natureza.

Já falamos de um lado? Agora vamos para o outro, o daqueles que dão ouvidos a quem aponta mas não é voz daqueles que precisam de forças para se tornar sem rótulos. Nos meus anos de moda aprendi que o que não acrescenta não atrapalha, a não ser que nós deixemos que isso aconteça.

Você já reparou que quando alguém vai contra ela tem mais voz do quem vai a favor? Quem é o nome mais forte ou marca, personalidade – que não seja Gagliasso, porque ele não representa o agenero nem a inserção disso no mercado porque tá mais perdido que muitas marcas nesse conceito – ou qualquer movimento que leve isso ao natural? Porque o sem gênero na moda não vem pra afirmar sua sexualidade e sim sua liberdade de escolha, gênero é identidade e não sexualidade, essa confusão faz com que religiosos caguem regras e os que se julgam sem rótulos briguem por algo que não vai levar a nada.

Se você procura aceitação dos que são contra, desculpe, mas a moda não fará você ser aceito, apenas imprimirá o que você é no momento – uma pessoa em busca de olhares. A moda é apenas uma impressão do cenário atual, por isso está perdida em sua maioria, as pessoas procuram ser o que elas não são, procuram ser aceitas no meio que elas não estão e isso influencia demais o que elas vestem e procuram no mercado.

Tá ficando extenso, talvez complicado, mas essa discussão dentro da moda está apenas começando e tem muito pano para a manga. Agora vai da geração sem rótulos saber onde quer focar, se é em quem tá contra ou a favor.

“Mas Alex, temos que acabar com quem prega esteriótipos, gênero e afins”

Aí pegou no ponto final de nosso papo, se somos sem rótulos não precisamos ser aceitos em grupos em quais não frequentamos, não precisamos mudar conceitos de quem prega algo e vive outro, que fala do amor mas dissemina o ódio… isso não é ser omisso, muito pelo contrário, é mostrar força, é mostrar a visão do futuro… é ser o futuro.

Mulheres no passado não podiam usar calças, isso era direito exclusivo dos homens até que um grupo de um milhão de mulheres se juntou para vestir calça ao mesmo tempo e foram às ruas gritar sua liberdade… não, espera, tá errado… foi Coco Chanel que sozinha começou sua luta contra uma tradição, um conceito.

Estamos numa fase em que com acesso a informação as pessoas estão mudando, conceitos novos estão vindo e a voz está ecoando mais nas redes sociais que deveria ser usada para o bem daquilo que você pensa e defende, não pra ir contra aquilo que te ofende. As redes faz com que isso chegue mais rápido, seja o bom ou o ruim e sei que isso faz com que muitas das vezes o ego fale mais alto que o objetivo.

Não podemos mudar todos, porque conceitos têm que ser respeitados mesmo quando há despeito, como no caso da nossa amiga que muito bem informada de moda achou que a comercial conceitual da C&A onde homens vestiam vestidos e mulheres de peças masculinas será a nova vestimenta, uma imposição.

A falta de informação fez com que religiosa não entendesse que o comercial pregou a liberdade de ser o que você é e vestir o que quer sem precisar se rotular, e, com tudo isso fez com que quem é contra rótulos vomitasse ainda mais em cima de quem nem informação sobre o assunto tem.

Tá sentindo como o “querer ser aceito” tem gritado mais alto do “querer ser quem eu sou“?

Vejo essa polêmica como um carro e essa discussão de “quem é o melhor” como a marcha ré, que fez todo mundo retroceder. Porque de discussão de moda sem gênero já envolve intolerância religiosa, homofobia e outros termos.

Meus parabéns para Ana Paula Valadão pela polêmica do comercial “que acabou de sair”, e, principalmente para quem dá ouvidos e entrou nesse sururu todo. Por uma geração como Chanel que seguiu seus pensamentos, que defendeu seus conceitos e mostrou que ser diferente é normal. Por pessoas fortes que queiram ser e não apenas impor porque estão atrás de uma tela de computador.

A geração atual tem voz, isso não quer dizer força.

Inserir o novo não é fácil, você tem voz através das redes mas a força é o que você faz com ela. Vai continuar nesse bate-boca ou vai à luta?

A moda é uma vitrine onde não impõe nada, apenas traz uma variação de coisas para quem quer ser igual ou diferente. Moda é igual espaço na internet: não é porque tem que você precisa usar.

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